Toda a Verdade Sobre o Glúten – A Minha História

Muito se fala atualmente sobre o glúten e por isso achei que devia escrever um post detalhado sobre o tema de modo a esclarecer quem precise e talvez ajudar alguém com a minha história.

O glúten é uma proteína composta pela mistura das proteínas gliadina e glutenina, que se encontram naturalmente na semente de alguns cereais (no seu endosperma).

Os cereais que contêm glúten são:

Trigo: É o cereal que contém a maior percentagem de glúten. Outras espécies de trigo que também contêm glúten são: Espelta, Kamut, Farro, Triticale.
Cevada
Centeio

Qualquer receita ou produto alimentar que apresente na sua composição algum destes alimentos vai possuir glúten, mesmo que em pequenas quantidades.

De notar que a aveia, apesar de não conter glúten na sua composição, pode conter glúten por contaminação de outros cereais (no campo ou nas fábricas). Existem marcas que garantem a isenção de glúten na aveia (no rótulo tem essa indicação).

O glúten é responsável pela consistência elástica e viscosa do pão e das massas (a palavra glúten deriva do latim e significa cola). O pão fofinho que costumamos ver à venda assim o é devido ao glúten, sendo por isso um ingrediente muito apetecível para a indústria da panificação.

No entanto, o glúten não é um ingrediente bem tolerado pelo organismo, por não ser digerido facilmente. Há 3 grandes patologias causadas pela ingestão de glúten, cujos sintomas se podem manifestar desde o nascimento ou apenas com o avançar da idade:

Doença celíaca: É uma doença auto imune em que as células de defesa atacam o glúten quando este é ingerido, atacando ao mesmo tempo as paredes do intestino, o que provoca uma atrofia na mucosa intestinal que impede a absorção dos nutrientes pela corrente sanguínea. É uma doença mais comum nas mulheres, provavelmente com causa genética, e que geralmente aparece na infância.

Principais sintomas: Inchaço abdominal, diarreia crónica e/ou prisão de ventre, anemia, problemas de pele (comiçhão, descamação, psoríase), mucosas alteradas (aftas), atrasos de crescimento, cansaço, perda ou aumento de peso, instabilidade emocional, depressão, problemas de fertilidade (de notar que a doença celíaca pode até não apresentar sintomas em certas pessoas).

Diagnóstico: Análises ao sangue revelam a presença de auto anticorpos no organismo. Biopsia intestinal mostra o intestino danificado.

Restrições: A doença celíaca exige a eliminação total do glúten na dieta para toda a vida.

Alergia ao glúten: Pessoas com alergia ao glúten desenvolvem uma reacção imunitária anormal quando o ingerem, levando à formação de anticorpos (Imunoglobina E) que vão depois produzir a libertação de outras moléculas responsáveis pela aparição dos sintomas. Esta reação é imediata após a ingestão do alimento com glúten, mesmo que em poucas quantidades.

Principais sintomas: Manchas vermelhas na pele, comichão, cara e língua inchadas, vómitos, diarreia, dificuldade em respirar, anafilaxia (problema grave na circulação sanguínea e na oxigenação).

Diagnóstico: Análises ao sangue (IgE aumentado)

Restrições: Pessoas com alergia ao glúten não podem ingerir qualquer alimento que contenha a proteína do glúten ou que tenha estado em contacto com outros alimentos que a contenham.

Intolerância ou sensibilidade ao glúten: É um problema que resulta do facto do organismo não ser capaz de digerir bem o glúten, sendo que os restos das proteínas gliadina e glutenina podem ficar presos nas parede do intestino. Não é uma doença auto imune nem alérgica, sendo de mais difícil diagnóstico. A melhor forma de confirmar esta patologia é a melhoria dos sintomas depois da eliminação do glúten da dieta. Atualmente já há testes de intolerâncias alimentares que permitem avaliar os níveis de Imunoglobina G e despistar/confirmar mais facilmente este problema.

Principais sintomas: Os mesmos que os da doença celíaca.

Diagnóstico: Por exclusão do glúten ou Teste de Intolerâncias Alimentares (análise ao sangue).

Restrições: Não ingerir alimentos com glúten ou que contenham grandes percentagens desta proteína.

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Agora deixo-vos a minha história

Desde criança que a minha avó já me dizia que eu era “fraquinha da barriga”. Tinha dores de barriga frequentes e alguns episódios de dores fortes no lado direito em baixo, os quais eram diagnosticados como casos de apendicite crónica. Não sei se seriam ou não, mas lá levava com antibiótico, aquilo passava e algum tempo depois voltava nova crise. Isto marcou a minha infância, tal era a preocupação que eu tinha em evitar comer certas coisas como as graínhas do tomate ou das uvas, com medo de ter de “ir à faca”.

Fui crescendo e por mim fui tendo mais cuidado com a alimentação. Os episódios de “apendicite crónica” desapareceram. Voltei a ter alguns problemas gastrointestinais depois dos 30 anos, após ter sido mãe. Dores e inchaços abdominais que começaram ao de leve mas que se tornaram diários (e que, por vezes, me impediam até de ficar de pé). Parecia que tinha barriga de 5 meses de gravidez, eu que sempre fui magra. Análises e exames médicos não denunciaram nenhum problema, apenas uma gastrite crónica. “É stress”, diziam os médicos. Experimentei alguns medicamentos, sem efeitos positivos. Comecei aos poucos a melhorar a minha alimentação. Comecei a perceber melhor os efeitos dos alimentos na saúde e em particular, na minha saúde. Retirei o leite e os derivados, fui eliminando os alimentos processados, o açúcar, introduzi mais vegetais na minha dieta. Reduzi o consumo de proteína animal, sobretudo carne, à medida que fui aprendendo a cozinhar pratos vegetarianos e ter descoberto que adorava. Aos poucos fui melhorando e comecei a sentir alguns efeitos positivos (foi um processo que durou anos). Os problemas gastrointestinais tornaram-se menos frequentes, sem no entanto terem desaparecido por completo.

Há 2 anos atrás surgiram novos problemas, desta vez relacionados com episódios de tosse constante sobretudo no inverno. Tosse que aparecia sem constipação, muito irritativa e que durava meses. Só melhorava com anti-histamínicos.

Desde o início deste ano comecei a ter outros sintomas estranhos. Comichão na barriga, braços e pernas, sem descamação da pele ou qualquer causa aparente. Chegava a acordar de noite tal era a vontade de coçar. Ao mesmo tempo vieram problemas nas articulações dos dedos das mãos, que me doíam quando fazia certos movimentos. Não contente com esta situação, passei por vários médicos até que me aconselharam a eliminar o glúten da alimentação. Já andava a reduzir o consumo de glúten, como consequência da evolução positiva da minha alimentação, mas ainda não tinha tido a “coragem” para o eliminar por completo. Para confirmar a suspeita, a médica aconselhou realizar o teste de intolerâncias alimentares. E lá se confirmou a minha sensibilidade ao glúten, trigo, centeio e cevada. Todos os restantes cereais sem problemas.  Em duas semanas sem glúten desapareceram as comiçhões e as dores nas articulações. Tosse nunca mais tive. O inchaço e dores abdominais diminuíram bastante, noto que ainda tenho episódios pontuais em situações de maior stress. Mas no geral posso dizer que não tem nada a ver com o que já tinha sentido.

Se é fácil eliminar o glúten? Não, requer força de vontade,  já que ele espreita em todo o lado. E é uma tentação… Mas a melhoria na qualidade de vida é enorme e compensa qualquer esforço.

O meu conselho? Se têm qualquer sintoma que vos incomoda, por mais pequeno que seja, não pensem que é normal. O normal é termos saúde e não sentirmos nenhuma dor ou desconforto. Tudo tem uma causa e o glúten pode ser uma delas. Procurem ajuda, sejam críticos, vejam como a vosso corpo reage a experiências. Não desistam de terem toda a saúde que merecem. E sejam felizes!

  • Foi um caminho algo tortuoso até descobrires o motivo dos problemas de saúde, imagino que descobrir finalmente a causa tenha sido um enorme alívio. O diagnóstico ainda não é propriamente fácil, há pessoas que chegam a pensar que têm doenças bem mais graves antes de chegarem a ele… Mas, felizmente, há cada vez mais sensibilização para o tema e cada vez mais produtos nos supermercados que podem ser ingeridos numa alimentação sem glúten 🙂

    • Maria

      Sim, é verdade, as pessoas estão cada vez mais alertas para o tema do glúten, felizmente. 🙂